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Por que tantas operações de M&A falham

Giovani Beirigo 1 de julho de 2026 6 min de leitura

Fusão e aquisição virou sinônimo de crescimento. Comprar um concorrente, somar operações, entrar num mercado novo de uma vez. No papel do anúncio, toda operação de M&A promete sinergia, escala e salto de valor. Na prática, uma parcela expressiva dessas operações não entrega o que prometeu, e algumas destroem valor que já existia.

Isso não é pessimismo, é o que a literatura registra há décadas, no Brasil e fora dele. Entender por que falham é a melhor forma de não repetir o roteiro.

O fracasso raramente tem um culpado único

A tentação é apontar um vilão: pagou caro demais, ou a cultura não bateu, ou a due diligence foi furada. A verdade desconfortável é que o insucesso quase sempre é a combinação de vários fatores que se reforçam ao longo do ciclo. Vale olhar os três eixos onde os problemas mais nascem.

Eixo 1: a auditoria que olhou pouco

A due diligence é a investigação que o comprador faz antes de fechar. Deveria revelar passivos escondidos, contingências, contratos frágeis, dependência de poucos clientes, problemas trabalhistas e fiscais. Quando é feita às pressas, ou limitada por um prazo apertado de negociação, ela vira um carimbo em vez de uma lupa.

O efeito aparece depois, quando o passivo que ninguém viu bate à porta do novo dono. E o detalhe cruel é que, no Brasil, boa parte dos riscos relevantes está justamente nos cantos que uma auditoria apressada não alcança.

Eixo 2: o preço que partiu de uma conta errada

O valuation é o processo de chegar a quanto a empresa vale. Ele depende de premissas, e premissas otimistas demais produzem preços que a operação nunca conseguirá justificar. O sobrepreço é um dos fatores mais citados no fracasso, porque ele tira toda a margem de erro: a empresa até pode ir bem, mas não bem o suficiente para pagar o que se pagou por ela.

Some-se a isso a assimetria de informação. Quem vende conhece o negócio por dentro; quem compra conhece o que conseguiu enxergar. Negociar sem reconhecer esse desequilíbrio é entrar no jogo com cartas a menos.

Eixo 3: a governança e o dia seguinte

Aqui está o eixo mais subestimado. Muita operação é tratada como se terminasse na assinatura, quando na verdade a assinatura é a largada. A integração pós-fusão, juntar times, sistemas, culturas e processos, é onde o valor prometido se realiza ou evapora.

Choque cultural entre as duas empresas, ausência de um plano claro de integração e fragilidades de governança na sociedade comprada formam a tempestade perfeita. Você comprou uma operação que funcionava por causa de pessoas e arranjos informais, e ao tentar integrá-la, quebrou justamente o que a fazia funcionar.

Onde o contrato entra

Nada disso elimina o risco, mas boa parte dele pode ser endereçada na estrutura jurídica da operação. Cláusulas de declarações e garantias transferem para o vendedor a responsabilidade por passivos ocultos. Mecanismos de preço como o earn-out condicionam parte do pagamento ao desempenho futuro, alinhando os interesses. Retenções e contas de garantia protegem o comprador contra surpresas no período seguinte ao fechamento.

O contrato não compensa uma tese de negócio ruim, mas um contrato bem desenhado é o que separa o comprador que erra e se protege daquele que erra e paga a conta inteira sozinho.

O que levar disso

M&A é provavelmente a operação mais sofisticada do mundo empresarial, e também uma das que mais decepcionam. O fracasso não costuma vir de um erro grande e visível, e sim do acúmulo de pequenas frouxidões: uma auditoria que olhou pouco, um preço esticado, uma integração improvisada. Quem trata cada uma dessas frentes com seriedade, antes de assinar, não garante o sucesso, mas elimina as causas mais comuns de fracasso. E em M&A, evitar o desastre já é meio caminho para o resultado.